Por que sonhamos?
Das velhas teorias psicanalíticas à moderna neurociência,
o que a ciência sabe sobre esse curioso fenômeno?
Por Eduardo Szklarz
Em 1900, o austríaco Sigmund Freud causou uma revolução
no estudo da mente ao publicar A Interpretação dos Sonhos.
Nele, o pai da psicanálise contestava a noção
bíblica de que os sonhos eram fenômenos sobrenaturais,
dizendo que derivavam da psique humana. Decifrá-los, portanto,
seria a chave para entender o que se passa dentro da nossa cachola.
Essas teorias foram ridicularizadas por muito tempo e somente agora,
mais de 100 anos depois, elas estão sendo testadas.
A primeira idéia de Freud confirmada pela ciência é a
de que os sonhos seriam restos do dia. Ou seja: algo que acontece com
você de dia reverbera durante os sonhos. A comprovação
científica disso foi feita em 1989 por Constantine Pavlides
e Jonathan Winson na Universidade Rockefeller. Ao observar cérebros
de ratos, eles descobriram que os neurônios mais ativados durante
o dia continuavam a ser ativados durante a noite. Do mesmo modo, os
neurônios pouco ativados durante o dia tampouco era m durante
a noite.
O que isso significa? “Significa, por exemplo, que, se uma pessoa
teve hoje uma experiência marcante, a chance de essa experiência
entrar em seu sonho é muito grande”, diz Sidarta Ribeiro,
diretor de pesquisas do Instituto Internacional de Neurociências
de Natal Edmond e Lily Safra (IINN–ELS). “Se ela foi atacada
por um tubarão, é provável que sonhe com tubarão.
Se foi para a guerra do Iraque, nos próximos anos vai sonhar
com guerra. Isso é o resto diurno levado às últimas
conseqüências.” Mas, como em nossa vida moderna ninguém
tem experiências extremas todos os dias, os sonhos acabariam
sendo uma mistura simbólica de um monte de coisas, como Fruem
havia previsto.
Você pode sonhar hoje com tubarão, a manhã com
jacaré, depois com afogamento, simbolizando todos eles uma mesma
experiência. Mas de onde viriam aqueles sonhos malucos, com cenas
que você nunca viu? Para a ciência, do seu inconsciente. É lá que
estão guardadas as lembranças que você adquiriu
ao longo da vida. Quando você dorme e começa a sonhar,
seu sono entra na fase R EM (sigla em inglês para Movimento Rápido
dos Olhos). “O sono REM faz ovos mexidos com suas memórias.
Ele as concatena de uma forma não comum”, diz Sidarta.
Isso acontece porque o cérebro está em altíssima
atividade nessa fase, mas não tem as informações
sensoriais da vigília. Não conta com cheiros, imagens,
sons nem outras informações que temos quando estamos
acordados. A atividade sensorial está livre e vai aonde quiser,
seguindo os caminhos mais usados – que são as memórias
mais fortes. Ou seja: seus sonhos com imagens aparentemente inéditas
seriam apenas combinações de uma série de símbolos
que você já conhece de outras experiências. Ok,
mas sonhar serve para o quê?
“Tudo indica que o sonho tem a função de simular
comportamentos – tanto os que levam a recompensa (os bons) como
os que levam a punição (os pesadelos)”, diz Sidarta
Ribeiro. “Portanto, sua função seria evitar ações
que resultem em punição e procurar aquelas que levam à satisfação
do desejo.” Esse processo funcionaria da seguinte forma. Imagine
uma cotia. Seu pesadelo é que a jaguatirica apareça quando
ela estiver bebendo água.
Assim, da próxima vez que for ao lago, essa memória
voltará e ela terá mais cuidado (evitando a punição).
E o sonho bom da cotia? É encontrar um campo com sementes gostosas.
Portanto, se ontem ela passou num lugar que tinha sementes, seu sonho
será ela voltando àquele lugar, pois talvez haja mais
alimento a li amanhã (levando à recompensa). O curioso é que
essa tese combina, de certa forma, com a idéia freudiana de
que a função dos sonhos é a satisfação
do desejo, teoria que havia se tornado motivo de chacota nas últimas
décadas.